segunda-feira, 25 de junho de 2012

Tentaram ajudar e deu Error 404

A Comissão Europeia decidiu incentivar as mulheres a seguirem carreira científica e fizeram um vídeo bastante infeliz. 

Todo mundo sabe que mulheres, no geral, não são incentivadas a estudar ciências e matemática. Preferem que nos dediquemos a outras coisas, como história, língua portuguesa, geografia, enfim, áreas de humanas. 

Não sou socióloga, mas pelo que já li por aí, esse negócio de separar carreira de homem de carreira de mulher vem de um pensamento machista - oh, não me diga! - que dita que é o homem quem deve prover tudo dentro de casa. E quais são as profissões mais bem remuneradas? As de exatas. Já as menos bem remuneradas são as de humanas. Lembram do tal curso "normal", formador de professoras? Algumas famílias só deixavam a filha estudar até aí: depois ela devia se dedicar ao marido, a casa e aos filhos. Ficou entendido, portanto, que seria assim: homens devem trabalhar, ganhar bem, sustentar. Exatas pagam bem. Matemática, Física e todas as Engenharias passam, então, a ser carreiras masculinas. Carreiras em Humanas, femininas, tidas apenas como hobbie.

O negócio é que a data de validade desse pensamento já venceu há muito. Mulheres veem seus irmãos e pais cursando e trabalhando em áreas que as interessam e acham que podem segui-las também. O problema é que a parcela de mulheres com esse pensamento ainda é pouca, devido a tal falta de incentivo por parte da sociedade. A comissão europeia, muito esperta (só que ao contrário), resolveu incentivar mulheres a seguirem caminhos tidos como tipicamente masculinos. Saquem só o horror:


Primeiro de tudo: cheguei a me assustar com o início. Salto alto? Hã? Eu esperava de tudo, mesmo. Já perdi a fé na publicidade há tempos, mas fundo rosa + salto alto, galera? Quatro anos de faculdade pra isso?

Daí tá lá o cientista todo concentrado no trabalho, PÁ. Três garotas magras, altas, desfilando em sua direção. "É bom demais pra ser verdade. Igualdade a todos, gente! UHUL", ele pensa. E olha a cara de safado-em-choque que ele faz.  Passado a São Paulo Science Week, a câmera começa a focar em coisas bastante bizarras. Unhas vermelhas. Explosões coloridas saltando dos instrumentos. Tem até uma hora em que eu juro que ver uma gotra de esmalte rosa cair na mesa! 

Como se a exposição de artes já não tivesse sido o bastante, agora as gurias ficam se contorcendo diante da câmera. Tipo numa sessão de fotos pra Vogue. 

"ai, ai ai ai ui ui, cientista, tu me seduz"


O vídeo continua, com takes de garotas se abraçando, sorrindo diante da câmera, fazendo pose, rindo, intercaladas com... bem... coisas científicas. Imagino eu que explosões em verde, azul e rosa sejam de alguma utilidade dentro do laboratório. Tem que prestar pra algo, certo?

Passado todo o esquema pose-ciência colorida-pose, as três garotas se juntam. Corta. Imagem de um óculos de proteção com "science" gravado em uma das lentes. Corta. As três garotas colocam o mesmo óculos e fazem também a mesma pose - o vídeo bateu recorde: maior número de mãos na cintura em menos de um minuto - e aparece na tela: Ciência: é uma coisa de garota! A letra I, em Science, é substituída pela imagem de um batom.

"microorganismos são mesmo hilariantes, me segura, amiga"


Termina o vídeo e eu teho vontade de perguntar qual o tipo de ácido que a comissão europeia ingeriu pra aprovar um troço desses. Pra nunca chegar perto. 

O povo que tem essas ideias acha que botando coisas tipicamente femininas - batom, maquiagem, salto alto, vestido, mulheres rindo abraçadas - num comercial para atrair mulheres para o campo científicio vai, de fato, atraí-las. Gente, tá tudo errado. 

Primeiro que a mensagem que o vídeo passa é: "Mulheres que são altas, magras, simpáticas, risonhas, usam vestido e salto alto, venham para a ciência!". Ele limita mulheres a isso, só isso. Seria muito mais correto, além de eficaz, mostrar que há mulheres de todos os tipos querendo entrar pra esse meio. Que se vestem de jeitos diferentes, usam maquiagem ou não, são altas e magras ou não, mulheres de todas as idades; mulheres que, acima de tudo, querem ser reconhecidas por si só, e não para agradar o olhar masculino e tradicional. O início do vídeo, com as garotas na frente do cara, grita: "busca por aprovação". Como se o espaço delas entre os bicos de bunsen dependesse dele (e de toda a comunidade masculina na ciência).

Outro coisa: por que o nome do vídeo é "Ciência: uma coisa de garota"? O uso de um "também" no final daria maior ideia de inclusão. O intuito não é fazer com que ciência seja estudada por mulheres, também? Dividiram as coisas entre de menino e de menina, novamente. 

O discurso da propaganda deveria ser feito através dos pensamentos femininos diante da ciência. Mostrando que sim, a gente pode fazer tudo que os homens fazem, ué! A capacidade é sempre a mesma. Não, a gente não depende da aprovação masculina pra seguir carreira em exatas. A gente não precisa fazer dança do acasalamento com objetos científicos pra mostrar que somos dignas de uma vaga no mestrado em Física, Engenharia, Informática. A gente precisa batalhar, vencer todo o preconceito e ter força de vontade pra chegar onde queremos. É pedir demais que grandes organizações incentivem isso de maneira certa? É só uma ajuda. Afinal, lutamos contra o sexismo sem ajuda da propaganda há muuuito tempo.

Marie Curie despreza essa propaganda. Aliás, espero que a notícia não tenha chegado a sua consciência post mortem. Se sim, aguardem desastres químicos. 

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